Comemoração dos 90 anos do Sinpro-Rio

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Comemoração dos 90 anos do Sinpro-Rio

Sociólogo Boaventura de Sousa Santos: Educação terá papel fundamental no mundo pós pandemia

“Os sindicatos estão à frente na luta pela vacina, contra o genocídio. O objetivo do capital é ceifar a organização dos trabalhadores” (Boaventura de Sousa Santos)

O Sinpro-Rio completou 90 anos no último 31 de maio e, para iniciar o período de comemorações sobre estas nove décadas, organizou um evento virtual (acesse o link no final do texto) com as presenças do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos e do cineasta Silvio Tendler.

A live foi coordenada pelo presidente do Sinpro-Rio, Oswaldo Teles, que destacou que o Sindicato sempre esteve, nestas nove décadas, na luta pelos direitos dos trabalhadores: "A indignação moveu este sindicato. Vivemos num momento de um governo fascista, mas estamos juntos na luta, na resistência, pelas nossas conquistas. Este sindicato representa trabalhadoras e trabalhadores e temos muito orgulho de sermos trabalhadores.”

No início, houve a apresentação do “teaser” do documentário, em fase de produção, “O Futuro é Nosso”, de Silvio Tendler. O filme aborda o passado, o presente e as perspectivas para o sindicalismo, tendo o Sinpro-Rio como um parceiro na realização. 
Silvio Tendler afirmou ter “orgulho de até hoje, desde a greve histórica de 1979, ser filiado ao Sinpro-Rio, que é fundamental na vida do sindicalismo brasileiro.”
Tendler ressaltou o exemplo de luta e de solidariedade do Sindicato que “neste momento em que o governo resolveu asfixiar todas as áreas culturais e científicas, o Sinpro-Rio abre as portas para o combate a esta tentativa de asfixia”.
Durante mais de uma hora, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, que está lançando o livro “O futuro começa agora: da pandemia à utopia”, fez uma análise sobre a conjuntura política, englobando a Educação do Brasil e do mundo no momento em que vivemos, em plena pandemia e autoritarismo

De acordo com o sociólogo, a pandemia será intermitente e a Educação terá papel fundamental no mundo que se aproxima: “A pandemia vai continuar conosco, com sequelas. O mundo só será todo vacinado até 2024 e neste período, novas variantes vão surgir e as vacinas já não serão eficazes”.

Boaventura ressaltou que “sempre que há uma transição, a Educação é fundamental”. Para ele, quando estivermos numa fase pós-aguda, os estudantes terão muito o que falar sobre perdas de parentes e amigos, sobre alimentação, pois muitos só se alimentam satisfatoriamente nas escolas, e os professores serão uma espécie de psicólogos, tendo que ouvir muito para aprender como se comportar.

O sociólogo abordou a questão da qualidade do ensino e o trato com os trabalhadores da Educação no Brasil. Lembrou que durante os governos do PT, houve uma significativa evolução, mas que hoje a degradação se dá tanto na Educação pública como na privada, ambas são prejudicadas em sua qualidade pelo neoliberalismo. 

Para ele, o objetivo do capital é cortar as “pernas” dos sindicatos e, com isso, ceifar a organização dos trabalhadores. Deu como exemplo a proliferação da informalidade (trabalhadores sem carteira profissional registrada) que aprofunda a precarização do trabalho pelo mundo. Na Europa, de acordo com o sociólogo, a expressão usada é flexibilização, mas a prática é a mesma: destruir direitos e impedir conquistas dos trabalhadores.

Sobre o momento político grave em que o Brasil vive, em plena pandemia, Boaventura de Sousa Santos afirmou que “os políticos de extrema direita se servem da democracia, mas não servem à democracia” e que os sindicatos têm papel fundamental no combate à política fascista. O intelectual afirmou que se alguém tem dúvida da importância histórica dos sindicatos deve olhar para as manifestações do últi mo 29 de maio no Brasil: “Tiveram êxito porque tinha a função organizativa dos sindicatos”. Lamentou ainda a omissão da imprensa, via os jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, em relação às manifestações, sendo uma ofensa aos brasileiros e brasileiras.

Salientou ainda: “Já se aproxima a meio milhão de mortos no Brasil, mortes evitáveis em sua maioria. Os sindicatos estão à frente na luta pela vacina, contra o genocídio. Se não houver gente na rua, o processo eleitoral de 2022 estará comprometido. Em democracia, não se admite um presidente genocida”, acentuou e acrescentou; “Cuidado, só as ruas podem impedir o fascismo de Bolsonaro.”

Sobre o aumento do racismo, da homofobia, do machismo, o sociólogo acentuou que “O mundo mudou muito. Pensávamos que o único problema era a desigualdade econômica. Hoje, verificamos que para esta luta ser válida, precisamos combater o racismo, a homofobia, o machismo. A questão identitária deve ser incorporada às bandeiras do sindicalismo. As lutas são ligadas. Quando aumenta o número de carteiras assinadas, diminui a perseguição. Quando o capitalismo torna-se mais agressivo, temos mais racismo, mais machismo, mais homofobia”.

Boaventura de Sousa Santos encerrou sua fala parabenizando o sindicato e salientando: ”A responsabilidade do Sinpro-Rio para os próximos 90 anos é muito maior”.

Boaventura de Sousa Santos é Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É igualmente Diretor Emérito do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça.
Silvio Tendler produziu e dirigiu mais de 70 filmes entre curtas, médias e longas-metragens em formato documental, além de 12 séries. Dentre os seus trabalhos, realizou premiados documentários sobre Jango (João Goulart) e JK (Juscelino Kubitschek), sendo que, no momento, está finalizando um filme sobre a importância dos sindicatos para os trabalhadores. Em fase de finalização, o mais recente documentário de Silvio Tendler, “O Futuro é Nosso”, faz um balanço do passado, aborda o presente e as perspectivas para o futuro das relações trabalhistas.