Professor Oswaldo Munteal revela dados sobre presidente Jo?o Goulart

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O historiador Oswaldo Munteal, professor universitário da FACHA, Puc e Uerj, vai lançar, ainda este ano, o livro "Jo?o Goulart: A Operaç?o Escorpi?o e o Antídoto da História". De acordo com as pesquisas do educador, o presidente fora assassinado por uma conspiraç?o entre os militares brasileiros da época da Ditadura e forças estrangeiras, que n?o queriam um modelo de governo popular no país.

Sinpro-Rio: O que foram as operaç?es Condor e Escorpi?o? Qual a relaç?o entre elas?
Oswaldo Munteal: A Operaç?o Condor ocorreu num contexto muito específico da América Latina, no qual transformaç?es importantes estavam acontecendo no continente. A regi?o passava por regimes populares e reformas estruturais nas décadas de 60 e 70. Esse fato desagradou essencialmente dois lados que se complementam: a esfera internacional, representada pelos interesses estadounidenses (que via na regi?o uma ameaça à sua hegemonia e à sua supremacia econômico-política); e, por outro lado, as classes dominantes, que tornaram esses países dependentes do capitalismo periférico, subordinados a uma esfera de dominaç?o quase colonial.

A Operaç?o Condor, ent?o, objetivava o controle da regi?o, uma vigilância extrema do comportamento dos seus dirigentes e apontou para a regi?o o seu serviço de inteligência (Central de Inteligência Americana - CIA). O objetivo era a eliminaç?o das principais lideranças, desde Prats, no Chile, até a morte de Ernesto Che Guevara.

Operaç?o Escorpi?o é um complemento da Operaç?o Condor - assim como outras que foram engendradas em determinadas áreas. Ela teve como objetivo o cerco que foi claramente denunciado pelo agente Mário Neira Barreiro, que está preso no presídio de segurança máxima em Charqueadas, no Rio Grande do Sul, por vários delitos. Ele foi um agente que controlou diuturnamente a vida do presidente Jo?o Goulart e mencionou a Operaç?o Escorpi?o, que objetivava a liquidaç?o física do presidente.

Mário Barreiro, assim como documentos do Serviço Nacional de Informaç?es (que foram recentemente desclassificados pelo Departamento de Estado Americano) e documentos do arquivo privado do presidente Jango (sob a guarda do Instituto Jo?o Goulart, em Brasília) apontam para a existência de uma suposta operaç?o que tinha como objetivo o envenenamento do presidente.

Sinpro-Rio: Qual a posiç?o tomada pela família de Jo?o Goulart? Por que o corpo n?o sofreu necrópsia?
Oswaldo Munteal: O Regime Militar fez um cerco brutal após a morte e o enterro do presidente em seu funeral, impedindo a possibilidade de uma necrópsia do corpo. A família foi constrangida, e é importante respeitar os depoimentos dos filhos, da ex-primeira dama, dona Maria Tereza Goulart. Eles viveram no exílio, foram ameaçados, sofreram atentados, tiveram a vida dura e difícil.

Goulart foi o estopim de uma crise que arrastou o Brasil afora, num dos movimentos de maior violência, numa postura de revanche contra aqueles que apoiavam a ascenç?o do povo brasileiro à sua condiç?o decisória. A família do presidente foi constrangida historicamente. Eu n?o falo em nome deles, acho que eles têm que se pronunciar. Eu, como historiador que os entrevistou, vi a luta da família pela verdade na memória do presidente Goulart. Devem ser respeitadas as suas opini?es, nas suas paix?es, nas suas emoç?es e nas suas certezas e convicç?es, porque essa é a base n?o só do trabalho intelectual, mas também de toda a humanidade, é o reconhecimento do outro, da auteridade.

Sinpro-Rio: Por que Jango foi t?o criticado?
Oswaldo Munteal: O presidente Goulart tinha um programa complexo que envolvia as Reformas Urbana, Agrária, Universitária, de Taxaç?o das Grandes Riquezas, Tributária, Lei de Remessas de Lucros para o Exterior, e além do projeto de alfabetizaç?o do povo brasileiro. Jango contava com dois homens muito importantes: Paulo Freire - que tratava dos Ensinos Infantil e Fundamental - e Darcy Ribeiro, que se responsabilizou pela Reforma Universitária. Ele também tinha Anísio Teixeira como base na educaç?o, no Ensino Médio.

Paulo Freire trazia o concreto, a realidade. "Educar é viver". Darcy, com uma capacidade de polemizar, defendia uma universidade aberta. Anísio, o saber sistematizado, o conteúdo aliado à formaç?o do cidad?o, sua obsess?o. Quadros de programas de Reformas de Base, além de Santiago Dantas, Evandro Lins e Silva compuseram um dos ministérios mais competentes e sensíveis ao povo brasileiro já vistos na história do país.

Sinpro-Rio: Qual a relaç?o de Jango com a esquerda brasileira?
Oswaldo Munteal: O presidente Goulart sempre teve uma posiç?o muito clara: ele nunca foi comunista, ele n?o era um radical. Ele era um homem que desejava reformas processuais e que teve na esquerda um dissabor muito grande, no qual parte da própria esquerda comprou a vis?o castelista de que Jango era um homem fraco. Diziam que ele n?o resistiu, que ele n?o lutou, que era um presidente manipulado por Brizola, por Prestes e pelos sindicatos. Entretanto, Jango tinha uma passagem muito boa, ele conversava com todas as lideranças, especialmente com Luís Carlos Prestes, com o PCB, diversas agremiaç?es e, sobretudo, com os sindicatos e com as centrais sindicais.

Sinpro-Rio: Desde quando o presidente sofria perseguiç?es?
Oswaldo Munteal: Jango começou a ser perseguido desde que foi Ministro do Trabalho. Ele foi presidente nacional do PTB, deputado federal, foi vice de Juscelino. Assim, a perseguiç?o sistemática começa em agosto de 1954, com o suicídio do presidente Vargas, através da imprensa lacerdista. Toda a mídia era contra.

O presidente pecou muitas vezes por ser democrata demais. Ele lembrava a velha teoria política clássica, rousseauniana. Ele n?o ofereceu nenhum tipo de obstáculo aos críticos, pelo contrário. Ent?o, ele foi vigiado por forças ligadas ao serviço de informaç?o, por outras ligadas aos meios de comunicaç?o e também por forças internacionais, principalmente a norteamericana. Jango foi intransigente com a negociaç?o da dívida externa, ele n?o aceitava que o Brasil pagasse uma dívida que, primeiramente, já tinha sido paga, e também pelo fato de n?o se poder pagar mais do que se arrecadava. Ele afirmava que n?o se poderia sacrificar o povo brasileiro em nome de interesses internacionais.

Sinpro-Rio: Quais os principais adversários políticos de Jango?
Oswaldo Munteal: O presidente Goulart teve adversários políticos por todo lado. Eu costumo dizer que seus principais adversários foram os omissos. Lacerda foi explícito; Juscelino, após o golpe, foi ambíguo, no mínimo; os militares diziam que Jo?o Goulart até que n?o era má pessoa, só n?o podia governar o Brasil, pois transformaria o país numa república sindicalista; outros, diziam que era fraco, irresponsável, aventureiro.

Jango reuniu todas as qualidades e defeitos que um homem pode reunir. Isso me faz duvidar de uma interpretaç?o séria. Ele reuniu, pelos seus inimigos, um elenco de posiç?es que s?o muito problemáticas. Isso fez com que ele se tornasse um homem, de 54 a 64, controlado, perseguido, observado e, de 64 a 76, duramente vigiado no exterior, porque a perspectiva da volta de Jango fazia os militares tremerem. Ele n?o aceitava voltar sem as reformas.

Sinpro-Rio: Por que você escolheu Jo?o Goulart como principal personagem a ser investigado? Há outros projetos?
Oswaldo Munteal: Desde jovem, pelos idos de 78, 79, eu acompanhei de perto a transiç?o para a anistia, a retomada da UNE, da UEE, e a figura de Jango sempre me intrigou, muito antes de eu fazer História e me tornar professor. De dez anos para cá, me dediquei mais diretamente à história contemporânea. Em 25 anos de profiss?o, eu sempre pesquisei a história moderna, tanto na graduaç?o, mestrado e doutorado. Entretanto, tenho estudado principalmente, nos últimos anos, o Caso Jango, que ficou muito pouco abordado.

Os estudos de René Dreifuss, os filmes de Sílvio Tendler, sobretudo nos dois casos, foram essenciais. As obras de René "1964: A Conquista do Estado" e "O Jogo da Direita", além de um outro livro - "A Internacional Capitalista" - foram importantes. O filme "Jango" foi essencial. Eles se complementam, s?o obras que nos inspiram. Eu acho que as outras obras n?o têm essa centralidade. N?o porque n?o sejam boas, mas estas tocam no coraç?o do problema, que dizem respeito à conspiraç?o, e isso na política é algo muito sério: o golpe, a conspiraç?o, a vendetta, as falsas embaixadas, os falsos acordos, os olhares. Quem poderia supor que um homem como homens como Amaury Kruel, t?o ligado à vida pessoal do presidente, seria o primeiro a traí-lo? Jango jamais quis acreditar nisso. Ent?o, muitas vezes os inimigos est?o próximos da gente.

Agora, o Brasil vive um momento de abertura dos arquivos, de uma oxigenaç?o maior. Eu intensifiquei os trabalhos, mas eles já vinham sendo feitos. Em 2006, publiquei "O Brasil de Jo?o Goulart" e publicarei, dentro de alguns meses, o livro "Jo?o Goulart: A Operaç?o Escorpi?o e o Antídoto da História", para concluir esse ciclo de atividades sobre o período.

Temos outros projetos, como um sobre a análise da Comiss?o Parlamentar de Inquérito (CPI). Estamos concluindo a pesquisa, vamos escrever um livro sobre isso - a CPI convocada pelo PTB em 63, que objetivava analisar o Ipes e o Ibad, e o papel dos organismos que poderiam apontar para o golpe que derrubaria o presidente.

Sinpro-Rio: Quais as principais contribuiç?es que seu livro vai trazer para a sociedade?
Oswaldo Munteal: Essa é uma pergunta muito importante, pois n?o há trabalho intelectual sem uma ligaç?o com a sociedade brasileira. Se n?o tiver, n?o é sério, pois nós temos que ser intelectuais públicos, n?o de gabinete, ou à distância. Pesquisador é o que pega a massa dos documentos, é o que trabalha diretamente com as fontes.

É necessária a análise direta, com os arquivos. Nosso trabalho - creio - tem uma repercuss?o, pois nós temos trabalhado, temos falado sobre isso para plateias muito jovens aqui e fora do Rio de Janeiro. Nossa equipe tem recebido diversos convites, s?o mais de 20 bolsistas - muitos na base do voluntariado, por acreditar na importância do trabalho, de ter fé nele, por acreditar que é um problema que precisa ser explicado. O Brasil tem que entender as suas feridas, n?o há país que n?o olhe para dentro de si mesmo. O olhar para dentro de si é um ato doloroso, pois a pessoa enxerga coisas que s?o inconfessáveis.

O nosso trabalho n?o foi criado para suprir vaidades, desejos de grandeza ou delírios. Nós n?o admitimos ameaças. Eu gostaria de deixar isso registrado: estamos recebendo ameaças, ataques pessoais de baixo nível. Eu quero dizer a essas pessoas que est?o aqui e no exterior que nós n?o vamos parar de analisar, de levar esse processo até o fim. Inclusive, nossa pesquisa vai revelar dados novos sobre o polígrafo, a partir de dados orais. N?o pensem que nós paramos! Há mais! Ent?o, esperem. àqueles que nos criticam, eu digo: aguardem. Vamos publicar "Jo?o Goulart: a Operaç?o Escorpi?o e o Antídoto da História".

A nossa escrita vai ser acessível. Nós exigimos respeito: à família Goulart, aos nossos alunos, ao povo brasileiro. Um bom convívio acadêmico requer respeito às opini?es divergentes. A morte por envenenamento é uma hipótese. Nós n?o acreditamos somente do ponto de vista exclusivamente acadêmico, mas sim pelo contexto em que vivia o presidente, pela história política do continente, da regi?o e, sobretudo, pela nossa sensibilidade. O historiador precisa ter algo a mais. A erudiç?o é importante, mas há mais do que isso, que é a sensibilidade, que é a análise do contexto, a perspectiva do contrário. Para nós, isso é de extrema relevância.

Assim, eu concluo o trabalho. Para mim, é uma emoç?o muito grande estar falando para o Sindicato dos Professores, o qual eu pertenço, da minha categoria. Eu sou professor há 25 anos e eu agradeço, inclusive, ao direito de resposta. Eu me orgulho de estar falando n?o para um órg?o que estabelece relaç?es oblíquas, mas respondi perguntas que eu n?o sabia que seriam feitas. Eu gostaria que isso ficasse registrado: eu n?o fiz perguntas para mim mesmo, pois seria falar de mim para mim - e isso é um delírio absolutista.

Agradeço imensamente e com grande emoç?o a possibilidade de falar com vocês. Esse trabalho vem das minhas vísceras, n?o só do meu cérebro.